Varanasi – o lado medieval do mundo

Aula de religião às margens do Ganges

Aula de religião às margens do Ganges

Varanasi faz parte do circuito turístico na Índia. Principalmente do povo mais chegado em yoga e hinduísmo. De qualquer forma, ficar 3 meses na Índia e nem ver o Ganges ia ser muito esquisito. Compramos nossa passagem com 10 dias de antecedência e já com bastante dificuldade por causa da época (Ano Novo). Chegamos do Himalaia, descansamos um dia e lá fomos nós para a estação. Por causa dos atos terroristas, todo metro tem checagem por raio-x. Passamos por duas checagens com nossas mochilas e chegamos à estação de trem uma hora antes. O inverno chegou e a fog baixou. Um minuto antes da partida cancelaram o trem. Lá fomos nós para mais duas checagens e de volta ao hotel para ver se eles tinham vaga. Sem saber quando teríamos outro trem. Dia seguinte pela manhã fomos até o atendimento aos turistas e conseguimos trem para o mesmo dia, mas sem garantia de saída por causa do fog e para uma estação próxima a Varanasi (cerca de 12 kms). O trem saiu no horário, atrasou 11 horas para chegar mas, por uma sorte do destino, fizeram nosso upgrade para primeira classe (que é o dobro do preço). Ficamos 22 horas no trem, mas pelo menos na primeira classe. Foi uma surpresa boa e tivemos nossa chance de ver como é. E é chic. Os lençóis mais limpos que vi em 64 dias de Índia. Cobertor, colchão, toalhinha, papel higiênico no banheiro, limpeza da cabine, armário, pia interna e porta (na segunda classe é uma cortina que cada um que passa arrasta) com tranca. Foi um luxo. Nem foi tão difícil aguentar 22 horas. Até a comida servida é melhor e por gente mais arranjada. E é claro os dois companheiros de cabine eram de outro nível: falam inglês muito bom, educados, nos deram muitas informações e dormiram quietinhos.

Primeira classe do trem. Do lado direito da foto tem uma pia e tomada para carregar micro e celular

Primeira classe do trem. Do lado direito da foto tem uma pia e tomada para carregar micro e celular

Chegamos a Mughal Serai (próximo a Varanasi) às 18h00min (o trem era previsto chegar 07h40min) cansados e preocupados porque já estava escuro. Saímos caçando a estação de ônibus para ir para Varanasi. No caminho encontramos outra turista que estava no jeep que faz o mesmo trajeto. Ela perguntou se queríamos ir e topamos. No trajeto descobrimos que essa turista era brasileira, mora no Canadá e já tinha onde ficar em Varanasi porque seu amigo canadense já estava aqui e tinha encontrado um lugar para ela. Foi uma mão na roda. Chegando a estação de trem de Varanasi (de jeep), rachamos o táxi até o hotel dela e tinha lugar para nós. Hotel limpo, barato, com wi-fi e perto de tudo. Foi uma sorte muito grande. Seremos sempre gratos à sorte e a Cristina e ao Guillome.

Vista da nossa varanda do hotel. Assim fica até bonito.

Vista da nossa varanda do hotel. Assim fica até bonito.

Dormimos até tarde e decidimos gastar no café da manhã já que fazia três refeições que estávamos comendo pão com queijo e Pepsi (no trem). O amigo da Cristina indicou-nos um café maravilhoso de uma americana. Comemos bem demais e quentinho e fomos passear nos ghats.
Vamos falar sobre Varanasi. Dizem que é a cidade mais antiga do mundo que existe desde 1400 AC. Mas só ficou famosa depois que o papa do hinduísmo estabeleceu o culto a Shiva (um dos deuses da divina trindade) como o principal culto da cidade. Poucos lugares na Índia são tão espirituais como os 80 e tantos ghats (escadarias nas margens dos rios) alinhados no Ganges. É um dos lugares mais sagrados da Índia e aonde os peregrinos hindus vêm se banhar para se livrar de uma vida inteira de pecados ou vem cremar seus entes queridos. Eles dizem que morrer aqui tem moksha – a liberação do ciclo de vida e morte. Dizem que é um lugar onde o físico e o espiritual se cruzam e muito sagrado para os hindus e o Ganges é o rio da salvação e da esperança. Antes se chamava Benares e Kashi (cidade da vida) e mantém as práticas dos rituais antigos e tradicionais e isso que traz tantos visitantes. Conforme a gente anda pelos ghats ve coisas típicas da Índia, mas aqui exacerbadas como os banhos e as cremações a céu aberto. Também encontramos todos os tipos de doidos, ripongas e bicho grilos.
Tirando esse lado espiritual e místico a cidade é horrível. Foi o centro de cidade mais feio que vimos até agora, mais suja e mais medieval. O crematório a céu aberto é uma crueldade para qualquer padrão de civilidade. A primeira vez que fomos estavam preparando três defuntos e cremando 12. Tudo é feito às margens do rio, entre vacas comendo as flores das coroas, cachorros deitados em montes de cinza para aproveitar o quentinho, bodes e ovelhas passeando e cheirando os restos dos mortos. É chocante. Se for espiritual também é grotesco. Não vimos sequer uma mulher. Fica um corpo sendo cremado, várias pessoas observando até que chega o final. Apagam o fogo com água do Ganges e aí todos vão embora. Nenhum choro. Como eles preparam os corpos e colocam incensos e folhas para queimar junto o lugar não cheira mal. Nada além do cheiro de estrume de vaca e excrementos humanos.
O restante dos ghats é um lixão só. Tem lugares que devem ter sido lindos. Onde tem um paredão vira um mictório a céu aberto. O lixo é constante. As roupas lavadas criam um espetáculo colorido e poluem o rio. As fotos falam por si.

Roupas para secar no ghat enquanto alguns tomam banho

Roupas para secar no ghat enquanto alguns tomam banho

Roupas secando enquanto os turistas passeiam de barco

Roupas secando enquanto os turistas passeiam de barco

Dezenas de barcos esperando para fazer o passeio do nascer do sol ou do por do sol

Dezenas de barcos esperando para fazer o passeio do nascer do sol ou do por do sol

Sivala ghat. O maior deles, tão grande que desmoronou e tiveram que reconstruir

Sivala ghat. O maior deles, tão grande que desmoronou e tiveram que reconstruir

Provando que estivemos lá

Provando que estivemos lá

Situação das margens do Ganges, o rio sagrado

Situação das margens do Ganges, o rio sagrado

Madeiras para a cremação no Harishchandra ghat que é o crematório secundário. Felizmente (porque é difícil de ver) e infelizmente (porque é muito diferente) é proibido tirar fotos

Madeiras para a cremação no Harishchandra ghat que é o crematório secundário. Felizmente (porque é difícil de ver) e infelizmente (porque é muito diferente) é proibido tirar fotos

Indiano preparando os excrementos de vaca que servirão como combustível

Indiano preparando os excrementos de vaca que servirão como combustível

Vendem essas vasilhas para que as pessoas possam levar a água do Ganges

Vendem essas vasilhas para que as pessoas possam levar a água do Ganges

Carlos em frente à cordilheira de ghats que vão até a ponte no horizonte

Carlos em frente à cordilheira de ghats que vão até a ponte no horizonte

Também tem coisas bonitas, antigas, mal cuidadas, mas que tiveram seu passado de glória

E depois de tanto ghat fomos conhecer os outros pontos turísticos de Varanasi: os templos.

Toda noite, das 6 às 7 tem uma cerimônia hindu para todos os presentes sentados no Dashashwamedh ghat

Partes da cerimônia

Partes da cerimônia

Cerimônia com cantos, sinos, fogo, incenso. Muito bonito.

Cerimônia com cantos, sinos, fogo, incenso. Muito bonito.

Sarnath

Buda no Buda Temple

Buda no Buda Temple

Buda foi para Sarnath, que fica a 10 km de Varanasi e pode ser atingido via auto riquixá, para pregar sua mensagem depois de ter atingido a iluminação em Bodhgaya. Deu seu primeiro sermão para apenas cinco seguidores num parque de cervos (vem daí o símbolo do budismo que são dois cervos e um círculo e está em todos os templos que entramos).

No século 3 BC o imperador Ashoka construiu stupas e monastérios magníficos e um pilar com escrituras. Tudo isso está ainda em Sarnath. Quando os muçulmanos dominaram a Índia, Sarnath perdeu seu valor sagrado e foi destruída e sumiu até ser descoberta por arqueólogos ingleses e recuperar sua glória. É um dos quatro lugares mais sagrados para os budistas e atrai peregrinos do mundo todo.
Começamos pelo Buda Temple.

Ao fundo a Dhanekh Stupa de 100 m de altura. E que marca o lugar onde Buda deu seu primeiro sermão

Ao fundo a Dhanekh Stupa de 100 m de altura. E que marca o lugar onde Buda deu seu primeiro sermão

E depois de tudo isso vamos para o lugar onde Buda recebeu sua iluminação: BodhGaya.