Saigon – Ho Chi Minh não colou

Museu Ho Chi Minh com o navio de cruzeiro ao fundo
Museu Ho Chi Minh com o navio de cruzeiro ao fundo

Nossa chegada a Ho Chi Minh City (HCMC) e ao Vietnã foi conturbadíssima. Pensamos que ia ser tranquila porque já tínhamos o visto, conseguido em Bangkok. Compramos o ônibus em Phnom Penh (Camboja). Nos pegaram no hotel na hora marcada e fomos para a rodoviária que fica bem longe. Ônibus só de locais. Os únicos turistas erámos nós: Carlos, eu e a Jill (a inglesa que encontramos no ônibus das 4.000 Ilhas para Siem Reap e que se juntou a nós até HCMC). A partir da saída do Laos, começamos a ter problema com os ônibus. No Camboja e no Vietnã eles lotam os ônibus, vão parando no caminho e colocando gente para sentar num banquinho de plástico no meio do corredor ou para sentar no chão mesmo. Além de ficar horrível ainda atrasa o ônibus porque eles param para subir e para descer gente o tempo todo. Deixo o resto para o perrengue abaixo.
Chegamos, dormimos e saímos no dia seguinte para sacar dinheiro novo, tomar café e pensar o que deveríamos fazer na cidade. Ficamos na rua dos mochileiros, Bui Vien, perto de tudo. Até hoje a cidade não se decidiu se chama HCMC, nome oficial, ou Saigon que é o nome conhecido por todos e defendido pelo povo daqui que lutou contra o norte. É a maior cidade do Vietnã e seu centro comercial. O Vietnã também fazia parte da Indochina francesa e tem prédios, cafés, ruas, informações, nomes e influência francesa. Muitos restaurantes e bares ocidentalizados. Ganhou o apelido de Paris do Oriente. É uma cidade grande, barulhenta, cheia de motos e tem seus encantos. Com dinheiro e alimentados fomos andar pela cidade. O primeiro susto é a quantidade de motos e as buzinas. Quando digo que assusta é porque assusta mesmo. Eles andam pela calçada, passam no farol vermelho, andam na contramão. Tentam não te atropelar, mas temos que tomar o triplo de cuidado porque cada vez que temos que atravessar a rua temos que olhar para todos os lados.

Faço um pequeno parêntese para contar um pouco da história. A guerra do Vietnã, que eles chamam de guerra americana, aconteceu entre 1965 e 1975. Depois da II Guerra Mundial o país, liderado por Ho Chi Minh (aquele figura magrinha de barba comprida) conseguiu a independência da França. A França não aceitou e lutou até 1954 em uma guerra horrível e então decidiram separar o Vietnã em dois: Norte e Sul. Norte comunista e sul capitalista. A França ficou apoiando o sul enquanto o norte ganhava forças. Em 1965, os Estados Unidos, que já vinham financiando 80% da guerra da França contra o Vietnã, resolveu ajudar o Vietnã do Sul a “combater o comunismo”. Saigon, então virou o centro nervoso das operações de guerra até 1975. Os americanos, juntos com os vietnamitas do sul lutavam contra os vietcongs (do norte). Aquela famosa foto dos americanos fugindo pelo telhado no final da guerra, derrotados, foi feita aqui. A foto do tanque selando a reunificação também foi feita em Saigon. A partir da reunificação, o Vietnã virou comunista e ficou fechado para mundo até 1990 quando começou a política de abertura.

Aqui no sul do Vietnã foram cometidas as maiores atrocidades contra o povo: agente laranja, napalm (petróleo gelatinoso), fósforo. O legado é terrível observado até hoje nas pessoas com anormalidades físicas por causa das toneladas de química despejada sobre o país. Por isso, duas visitas imperdíveis são os Cu Chi Tunnels e o War Remnants Museum onde toda a história é contada. Fechando parênteses, começamos pela Dong Khoi uma rua cheia de lojas de grife, hotéis maravilhosos e prédios históricos.

Reunification Hall – primeiro foi a residência do governador geral da França, depois o Palácio Presidencial do Vietnã do Sul e era dele que o presidente recebia os dirigentes dos outros países. Foi daí que ele foi retirado por um helicóptero americano quando os vietcongs ganharam
Reunification Hall – primeiro foi a residência do governador geral da França, depois o Palácio Presidencial do Vietnã do Sul e era dele que o presidente recebia os dirigentes dos outros países. Foi daí que ele foi retirado por um helicóptero americano quando os vietcongs ganharam

E, por que ninguém é de ferro, depois de visitar o museu, ver toda a história triste, ver fetos com anomalias do agente laranja em vidros de formol (a maioria é de gêmeos siameses) decidimos ir andar no parque e respirar a alegria da cidade. No final do dia o pessoal fica no parque fazendo ginástica (???) e jogando badminton com o pé e são bons. É uma delícia assistir.

Pessoal dançando ou fazendo ginástica
Pessoal dançando ou fazendo ginástica

No outro dia fomos fazer um passeio em direção à beira rio. Rio Saigon, com calçadão bonito, limpo e bem cuidado. Perto do rio ficam os prédios mais modernos e grandes bancos. No final do dia, para relaxar, fomos jantar e tomar Saigon, é claro. A Rua Bien Vien é onde tudo acontece para os turistas, todas as agências de turismo, restaurantes, cafés modernos e gente pedindo e vendendo. Encontramos novamente o Ian, o Mike e a namorada ainda de muletas que encontramos em Luang Prabang, Vang Vieng e Vientiane. Mundo pequeno esse dos turistas. Fomos duas vezes a esse restaurante da “quatrolho” como chamamos a alegre garota que ficava catando os clientes na rua. Numa das vezes, na mesa em frente estavam três coreanos e quando ela foi tirar foto deles eu posei. Eles gostaram tanto que pagaram mais duas cervejas para nós. Chegamos tropeçando no hotel. Saigon também foi o lugar onde falamos tchau para a Jill depois de seis dias juntos. Ela voltou para UK. Foi uma excelente companhia nos passeios e nos problemas.

E no dia de ir embora fomos até Chinatown. É longe da rua dos mochileiros. Fomos a pé e voltamos de ônibus de linha. Ônibus confortável, com AC, cobrador, barato e não encheu muito. Essa Chinatown não é tão característica como a de Bangkok, mas as pagodas são muito bonitas e novidade para nós que não fomos para a China.

Incensos na Hoi Quan Thue  ou Lady´s Pagoda. Os fiéis compram os incensos, colocam o nome e penduram.
Incensos na Hoi Quan Thue ou Lady´s Pagoda. Os fiéis compram os incensos, colocam o nome e penduram.

De Saigon fizemos dois passeios. Um para os túneis e outro para o Delta do Mekong. Esses dois serão dois posts separados porque tem muito assunto.
Ficamos em Saigon e no Delta do Mekong cinco dias. Deu para perceber algumas coisas sobre o Vietnã:
– as pessoas são muito bonitas. Junta aqueles olhos puxados com uma cor de pele muito bonita como se fosse um bronzeado
– o número de crianças é enorme. Nos últimos trinta anos (pós-guerra) a população triplicou. Foi de 30 milhões para 90 milhões. Como muita gente morreu na guerra estão construindo as famílias novamente.
– eles se parecem muito com os indianos por conta da falta de respeito com o público: faróis, calçadas, jogam sujeira na rua, comem na rua agachados, mesmo jeito de sentar de cócoras.
– eles não são iguais ao resto da Ásia que já visitamos. São rudes, agressivos, bravos, brigões e não respeitam o turista como nos outros países.
– aqui temos que estar muito mais atentos porque os desentendimentos, roubos, esquemas para te enganar são grandes e relatados. Tudo tem que ser formalizado, com os nomes das pessoas ou então eles te enganam
É uma pena porque o país é bonito e se levar em consideração que a guerra acabou em 1975 estão muito bem equipados e desenvolvidos. Nem parece um país socialista.

Perrengue:
E aí, com aquele ônibus lotado de locais e a dois quilômetros da fronteira paramos em um posto para jantar e o ônibus não saiu mais. Quebrou. Problema número um: assim que entramos no ônibus o rodo moço pegou todos os passaportes para agilizar a fronteira. Então os passaportes estavam na fronteira e nós não. Problema dois: a fronteira fecha às 22:00 e já eram 20:00. Ônibus já vinha atrasado uma hora. Se a gente não conseguisse chegar até a fronteira teríamos que dormir na estrada e sem passaporte. Depois de muita discussão e apelos desesperados colocaram alguns passageiros no ônibus que chegou e que tinha saído duas horas depois do nosso. Nessa hora, quase que a nossa bagagem se foi. Quando vi a movimentação avisei o Carlos que salvou a nossa bagagem e a da Jill que já estavam indo embora. Na sequência chegou outro ônibus para o pessoal jantar. Colocaram a gente nele, enquanto o pessoal jantava, e nos levaram até a fronteira. Cruzamos a pé, aliviados recebemos nossos passaportes. Do outro lado tinha uma van que nos levaria até HCMC. Levar levou, chegou a um posto de gasolina, não sabemos aonde e falou para descermos. Carlos, eu e a Jill seríamos largados no meio do nada às 23:00. O Carlos primeiro pediu ao motorista para que levasse a gente até a rua dos mochileiros. Ele disse que não e queria nos expulsar da van. O Carlos insistiu, gritou com ele. Ele pegou uma chave de fenda e ameaçou o Carlos. Eu a Jill brancas e aterrorizadas. Saímos da van. Nossa sorte é que o pessoal que estava no posto nos ajudou. Chamaram um táxi, negociaram o preço, deram o celular deles caso tivéssemos problemas. Meia noite chegamos cansados e ainda tremendo. Foi a primeira vez na Ásia que me senti ameaçada. Quando visitamos as pagodas em Chinatown, na pagoda Hoi Quan Tue Thanh, encontrei nosso motorista animal. Pelo visto ele é chinês e devoto. Quem diria?

4 comentários sobre “Saigon – Ho Chi Minh não colou

  1. Pingback: Informações práticas – Vietnã | Two backpackers

  2. Xico

    Menino e Menina, que coincidência estranha, enquanto as únicas pessoas que eu conheço pessoalmente conhecem Saigon, Emílio Santiago, único a cantar algo relativo à cidade nos deixou.
    Beijos
    A viagem continua “da hora”
    Xico

    1. vcteixeira

      Oi Xico, eu até pensei em abrir o post com a música dele que eu adoro e finalmente entendi (o pedaço de Saigon quer dizer uma zona de guerra). Devia ter feito isso porque adoro a música. Enquanto em Saigon, fiquei ouvindo a música na internet. É uma pena. Fiquei triste. Não sabia. Abcs.

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