Rapa Nui – o umbigo do mundo

Ahu Tongariki – o mais famoso e mais fotografado
Ahu Tongariki – o mais famoso e mais fotografado

Depois de dormir no chão do aeroporto de Papeete e um atraso de três horas, fomos voar de Lan Chile num voo correto e cheinho de brasileiros. Assisti A Vida de Pi, adorei porque me lembrou muito a Índia. Chegamos a Ilha de Páscoa às 11:00 da manhã. O desembarque é na pista e o aeroporto é pequeno como a ilha. O hostel que a gente queria tinha um representante dentro do aeroporto, mas já estava lotado. Fomos ver o do lado e ficamos com ele mesmo. O dono era um Rapa Nui autêntico. É assim que funciona, a ilha é pequena, 163 km2, e se você reservou o hotel eles vão te buscar e se você não reservou pode achar um assim que chega. Depois descobrimos que quando eles veem o avião chegar vão para o aeroporto. Como a cidade é pequena e não tem congestionamento dá tudo certo. Fomos para o hostel embaixo de chuva. Esperamos dormindo até que parasse e depois fomos caminhar. Foi um choque. A primeira impressão que tivemos é que estávamos de volta à Índia Esgoto a céu aberto, não tem calçadas o tempo todo, cachorros de monte, todos grandes, todos ficam seguindo a gente e todos de rua. Depois nos contaram que o pessoal vai do continente para a ilha e leva os cachorros. Na hora de voltar é muito caro levar o cão e eles deixam por lá mesmo.
E tudo fechado. Fecham tudo na hora do almoço e só reabrem às 16:00 ou depois. Passamos pela ATM, sim tem duas, sacamos dinheiro para poder fazer compras e lá fomos nós para o supermercado descobrir que tudo é caríssimo. Eles não produzem nada, tudo vem do Chile por avião e aí uma coca custa R$ 6 que é o mesmo preço da água. Ou seja, mais caro que a Polinésia Francesa. Os hotéis também não ficam atrás, comer fora então é de R$ 40 para cima. Passado o choque, fizemos nossas compras e voltamos para descansar porque o dia anterior foi difícil. Dia seguinte fomos conhecer Hanga Roa, que é o nome da única cidade da ilha, procurar uma excursão para conhecer os moais, compramos a excursão e foi só. Voltar, cozinhar e dormir.

Comprada a tour lá fomos nós. Tour tradicional pela IP é ir até Ahu Aka Hanga, Ahu Tongariki, Rano Haraku, Ahu Pito Kura, Ahu Nau Nau e Anakena.
Agora as explicações sobre tudo isso.
A IP é uma ilha da Polinésia, no Oceano Pacífico, que ao contrário do que alguns pensam não fica depois da Ilha do Carnaval. Junto com a Polinésia Francesa e o Havaí forma o triângulo polinésio. Os idiomas são muito parecidos, a constituição física deles também e as danças e as músicas. Ela é famosa pelos mais de 800 estátuas gigantescas, esculpidas em pedra pelo antigo povo Rapa Nui. O povo da Polinésia povoou a região, tinha uma cultura brilhante como atestam os moais, mas superpovoaram a ilha, devastaram as florestas e a civilização acabou por conta disso. Quando os europeus chegaram, a população já tinha caído de 20.000 para uns poucos 2.000 e hoje serve como exemplo do que o desrespeito à ecologia pode fazer com um povo. É a ilha habitada mais remota do mundo. A ilha pertence ao Chile, mas quem primeiro chegou foram os holandeses num domingo de Páscoa e aí num gesto de intensa criatividade nomearam a ilha. O mais famoso e mais visível na cultura da ilha foi a produção massiva dessas estátuas gigantescas chamadas moais que representam ancestrais deificados. Eles acreditavam que os vivos tinham uma grande relação com os mortos e que esses últimos forneciam tudo que os vivos necessitavam: saúde, fertilidade da terra e animais e riqueza e para agradecer isso os vivos faziam oferendas para fornecer um lugar melhor para os espíritos dos mortos. A maioria dos povoados ficava na costa e os moais eram colocados nessas plataformas chamadas ahu olhando por seus descendentes com as costas viradas para o mar. Nas guerras internas eles próprios destruíram os ahus e os moais. Quando James Cook chegou em 1774 já relatou alguns moais derrubados, em 1825 veio outro navio britânico e já não viu mais nenhuma estátua em pé. Eram destruídos nas guerras tribais. Além disso, os mais famosos de Tongariki foram varridos por um tsunami. Tongariki tem os maiores moais porque ficava a apenas um quilômetro da “fábrica” de moais que é Rano Raraku. Quanto maior o moai mais recente ele é porque foram aperfeiçoando o trabalho. Eles são esculpidos da cabeça até a pélvis com os braços cruzados na frente e as unhas longas, sinônimo de riqueza e poder. As orelhas são grandes e o nome da tribo deles era Orelhas Grandes.

Para entrar na pedreira dos moais, Rano Raraku e no Orongo tivemos que pagar US$ 60 cada um. Essa entrada só pode ser comprada no aeroporto e no centro de turismo que fica na cidade. Nos parques não vendem.
No dia seguinte acordamos com um temporal e não deu para fazer nada até o almoço. Parou a chuva, abriu sol e saímos para tentar ir ao museu. Andamos no barro para lá e para cá até achar o museu que fica um pouco distante. No caminho encontramos gente voltando e perguntamos se o museu valia a pena. Ninguém disse que valia e desistimos já que tinha que pagar e se não valia a pena…. Andamos mais pela cidade que já estávamos conhecendo bem. E a luz nessa época dura até às 19:00 então dá para passear bastante.

Dia seguinte sol azul, sem chuva, fizemos nosso lanchinho básico para levar no passeio e lá fomos nós para o Orongo gastar a outra parte do bilhete dos parques e Rano Kau que é a cratera do vulcão. Caminhamos por dentro de um bosque, sempre subida, um pouco de barro da chuva do dia anterior. Todos fazem uma excursão de meio dia para a cratera do vulcão e vão de carro. Encontramos pouca gente no caminho. A cratera é uma visão e Orongo é importante porque é uma aldeia cerimonial, com 54 casas relacionadas ao culto Make-make e onde aconteciam os rituais do Homem Pássaro (tangata-manu).  A aldeia era usada apenas uma vez por ano, no início da primavera. Como a ilha ficou superpovoada e as reservas de comida diminuíram alguns guerreiros chamados matatoa ficaram mais fortes e os cultos antigos em que o poder passava de forma hereditária terminaram abrindo caminho para o Culto dos Homens Pássaros. Esses homens, chefes de diferentes tribos, tinham que disputar entre si quem era o mais forte em maratonas de esforço como nadar da IP até a ilha mais próxima, Motu Nui, amarrados em um tronco e trazer o primeiro ovo do pássaro manutara que chegava na primavera. Quem ganhasse teria o poder. Nessa época acabou também a fase dos moais. O culto do Homem Pássaro durou até a chegada dos europeus.

No domingo fomos assistir a missa. Aliás, para duas pessoas não católicas como nós batemos nosso recorde de missas pelo mundo: assistimos missa de Páscoa no Vietnã, em Sidnei na comemoração do ANZAC Day, no Taiti, em Moreia e agora na IP. Todos diziam que a missa é imperdível. Saímos embaixo de uma chuva forte que virou um temporal. Apesar da pequena distância de quatro quarteirões chegamos ensopados e enregelados. A missa é diferente mesmo. O padre parecia Rapa Nui, é novinho, usava colar de flores, a missa é toda cantada na língua local e falada em espanhol. Tem música com instrumentos locais também. Não fosse a chuva e o frio teria sido muito legal. A igreja lotou. E voltamos também embaixo de chuva. E assim continuou o resto do dia estragando completamente nossos planos de ir andar de bicicleta e ver os outros sete moais restaurados.

Gostamos da IP e creio que ela ficou nos devendo um clima melhor e que os guias não conseguem entregar uma história muito interessante. Deve existir muito mais que eles não sabem ou não conseguem transmitir.

Perrengue: Saímos de Moreia cedinho, passeamos um pouco por Papeete. Como andamos da maneira mais econômica tivemos que pegar o ônibus até o aeroporto e o último ônibus saia as 17:00. Nosso voo era às duas da manhã. Passamos no supermercado e gastamos os últimos francos em nosso poder para não carregar mais dinheiro inútil e pegamos o ônibus das quatro para não correr riscos. Chegar ao aeroporto e descobrir que o voo estava atrasado três horas ou seja, amargamos uma espera de 13 horas, sem dinheiro porque gastamos tudo e num aeroporto frio, pequeno e sem lugar para ficar. Dormimos no chão, nós e vários outros. Por sorte, uma francesa que embarcou bem antes me deu o cartão de internet dela e eu ainda me distrai por umas três horas. Depois foi só esperar. Comemos salmão no voo, jantar para eles, café da manhã para nós. Os dois tivemos intoxicação alimentar que só nos abandonou lá pelo quarto dia. O Carlos bem pior que eu teve que ser medicado novamente.

Digno de nota: Sábado quando fomos sacar dinheiro da ATM estavam repondo o dinheiro nela. Nenhum carro forte, nenhuma segurança. Apenas duas pessoas com o dinheiro, a porta da ATM aberta, pediram para esperarmos. Terminaram, agradeceram e saíram andando

2 comentários sobre “Rapa Nui – o umbigo do mundo

  1. Anônimo

    Ilha da Páscoa – demorou mas saiu. Tudo muito interessante, desde os esgotos a céu aberto. Nem quando morei em cidadezinhas, vi um esgoto assim, tão bem feito e a rua com calçamento impecável, talvez até pelo número reduzido de veículos. Aliás, a ilha dá a impressão de ser enorme pq faltam pessoas e sobram os imensos moais. Aqueles de Ahu Nau Nau deve ter sido uma produção da elite, são bonitos e bem acabados. Da cratera e da cor do mar, nem dá pra falar, são lindos. Fechamento ótimo para uma viagem tão longa. Voltem em paz, vcs terão recordações para algum tempo. Bjs.

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