De Santiago a São Pedro do Atacama – 1.910 km pela Ruta 5

Salar de Atacama, Andes ao fundo
Salar de Atacama, Andes ao fundo

Já em Santiago fomos atrás de como chegar ao Atacama e descobrimos esse tour de mochileiros chamado Pachamama. Na verdade não descobrimos, está anunciado em todos os hostels. Comparado com o ônibus direto esse tour fica bem mais caro, mas a vantagem é que chega em cinco dias ao Atacama e no caminho vai parando por lugares que a gente não conhecia. É um passeio feito para o povo da mochila. São no máximo treze pessoas em um micro ônibus, paramos em hotéis / hostels mais em conta e em todos os supermercados pelo caminho. Onde tinha cozinha, cozinhamos e onde não tinha fomos avisados e então era só se abastecer de “comida basura”, ou seja, porcariada para petiscar. A viagem toda dura 10 dias. Cinco para chegar, um para ficar e os outros para voltar. Decidimos que íamos ficar em SP do Atacama mais algum tempo e que voltaríamos de ônibus de linha. Nosso motorista Leonardo, muito boa gente, morou em São Paulo e fala português. Nosso guia Rodrigo, super gente fina, excelente guia tornou a viagem muito melhor. Fomos em oito pessoas. Tirando eu e o Carlos os outros todos eram de língua inglesa. Ou seja, certas horas o cérebro dava nó porque não sabíamos se estávamos no Chile ou na Inglaterra e a gente se perdia na tradução. Sempre que possível praticamos espanhol e ajudamos os outros que não falavam o idioma da terra. Logo pela manhã de sábado passou o ônibus e saímos em uma viagem de quase cinco horas até La Serena. Cerca de 470 km.

Pichidangui

Praia de Pichidangui
Praia de Pichidangui

Uma pequena cidade praiana com movimento apenas na alta temporada. No verão fica cheia de gente e os preços sobem muito. Pichidangui quer dizer pequena jangada na língua Mapuche. Os mapuches são um grupo de habitantes indígenas do centro-sul do Chile e sudoeste da Argentina. Eles constituem uma etnia composta de vários grupos que compartilharam de uma estrutura social, religiosa e econômica comum, bem como um património linguístico comum. Ou seja, várias tribos com o mesmo nome. Paramos aqui para todos descansarem, comer empanadas e ver a igreja muito bonita do local.


La Serena

Vista da cidade de La Serena
Vista da cidade de La Serena

É a segunda cidade mais velha do Chile fundada em 1544 e tem 29 igrejas. É uma cidade de 147.000 habitantes, pequena, limpa, bem arrumada. Paramos aqui para dar uma volta, ver o mercado e fazer compras no supermercado para o dia seguinte. Na verdade dormimos em Coquimbo que é a cidade ao lado e que tem mais ofertas de lugares para dormir. Chegamos muito cansados, como era um hotel tivemos que jantar com eles porque não tinha cozinha para nós. Saímos no dia seguinte logo cedo depois de dormir em um colchão que já teve seus dias de glória e nos obrigou a dormir juntinhos no meio dele. Pior foi para o Phil e Ann (casal de australianos) que o colchão insistia em jogar para as laterais. Isso sem falar no cheiro de mofo dos quartos. Tão cansados, caímos e dormimos.


Punta de Choros

“Infestação” de cormorones (esse pássaro que parece pinguim)
“Infestação” de cormorones (esse pássaro que parece pinguim)

De La Serena até a Bahia Inglesa, nosso destino no dia, são 490 km. Mais foi nosso melhor dia. Além de pararmos em Punta de Choros para ir passear na Isla Dama ainda tivemos nossas primeiras visões do deserto. E que visões. Olhando as fotos eu tenho dificuldade em decidir quais são as mais bonitas para mostrar. O deserto já é espetacular e ainda por cima alguns guanacos (palavra na lingua Quechua para um ser da família dos camelos) muito lindos aparecem na estrada. A Isla Damas e a Isla Choros ficam na Reserva Nacional do Pinguim de Humboldt. Chegando a Punta, tomamos um barco para fazer um passeio de três horas passando pelas ilhas, descendo em uma delas para fazer piquenique e caminhar e para ver todos os animais do parque: pinguins, cormorones, focas, golfinhos, leão marinho e lontras. E as formações rochosas muito lindas em contraste com o mar azulzinho, azulzinho. Foi um dia espetacular. Um de muitos.


Bahia Inglesa

Sentido horário: Rodrigo nosso guia, Phil escondido, Ann, alemã, Carlos, três inglesas
Sentido horário: Rodrigo nosso guia, Phil escondido, Ann, alemã, Carlos, três inglesas

Essa era a turma do passeio que se reuniu na Bahia Inglesa para tomar um tipo de um clericot (vinho com frutas) e fazer churrasco. A cidade fica perto de Copiapó e Caldera que são bem maiores. Ela tem apenas 135 habitantes e foi uma parada para descanso depois de dois dias de viagem. Ficamos em uns chalezinhos graciosos para quatro pessoas. O nosso compartilhamos com o casal australiano Phil e Ann. Foi excelente companhia. Como é bom ficar com gente acostumada a viajar, sem frescuras e que faz tudo para que tudo de certo. Uma das melhores companhias de toda a nossa viagem. Passamos duas noites por lá. A praia não é bonita, como era baixa temporada tudo estava fechado. Fomos até Caldera para visitar o mercado central e o supermercado. Tiramos o dia para andar, descansar e lavar roupa. A água do deserto é horrível, chama de água dura porque é cheia de química e não faz espuma. Foi difícil lavar roupa.


Antofagasta

Da esquerda para a direita: Phil e Ann (australianos), três inglesas, Rodrigo o guia e nós em frente a Mano del Desierto
Da esquerda para a direita: Phil e Ann (australianos), três inglesas, Rodrigo o guia e nós em frente a Mano del Desierto
Antofagasta vista ao fundo. Paisagem perto da La Portada
Antofagasta vista ao fundo. Paisagem perto da La Portada

Próximo dia com destino a Antofagasta que quer dizer cobre escondido em Mapuche. Entramos na parte mais seca do Atacama onde não chove há 50 anos. No caminho paramos na Oficina do Chile que é uma mina abandonada de nitrato e que foi fonte de renda grande no século 19. A visão é tudo o que esperamos do deserto e ainda por cima com o cemitério abandonado. Paramos também para ver a Mão do Deserto, tirar fotos. O almoço foi em um restaurante no meio do nada, comida boa, gente local e vistas espetaculares. Nesse ponto nós começamos a achar que a escolha tinha sido perfeita. O Atacama é um sonho de lugar. Sonho diferente da Polinésia e de uma beleza sua e única. Começamos a amar o deserto. Quase à noite chegamos a Antofagasta que é uma cidade de 285.000 habitantes, porto importante para o Chile e onde começou a Guerra do Pacífico (guerra entre Chile, Bolívia e Peru) que foi ganha pelo Chile. E onde fica La Portada (em espanhol quer dizer capa do livro ou manchete de jornal) que é uma pedra que parece um portal e nos lembrou muito a London Bridge na Great Ocean Road na Austrália. Ou seja, mais um dia cheio de coisas bonitas, novidades e a gente descobrindo que o Chile tem infraestrutura para turismo: estradas ótimas, postos de combustíveis muito bons (vários da Petrobrás) e paisagens de cair o queixo. Em Antofagasta dormimos em um hotel chamado Brasil. Foi legal chegar ao Brasil à noitinha. Ainda saímos para visitar o mercado central e ver a cidade. Compramos frutas para os próximos dias.

No deserto

Flamingo de James na Laguna de Chaxa
Flamingo de James na Laguna de Chaxa

No quinto dia já sabíamos que íamos chegar a São Pedro de Atacama, mas que teríamos pela frente um dia quente, seco, sem lugares para parar e comer e uma estrada difícil. Saímos da estrada principal para pegar a rodovia norte que é uma secundária e cruzar o Salar de Atacama e o trópico de Capricórnio. Deserto, deserto, deserto. Sal, sal e sal. Vistas lindas, nosso famoso lanche de pão com queijo, bananas e uma alegria enorme. Apesar de estarmos no deserto desde o segundo dia finalmente chegamos ao Salar, aos flamengos e vimos um oásis. Primeira parada Baquedano que é uma cidade que tem um cemitério de trens onde foi filmado Quantum of Solace do James Bond. É um cenário de fim de mundo, Mad Max ou coisa do tipo. Os trens ingleses abandonados junto com toda a estrutura lembra uma época em que a produção de nitrato nas minas era enorme e gerava muito dinheiro. Tudo empoeirado, enferrujado e charmoso. Logo depois de Baquedano saímos da Rota 5 em direção ao Salar de Atacama que é o maior salar do Chile. Ai andamos pela rodovia do sal que é mesmo feita de sal. Depois de caminhar pelo lago de sal, andar mais algumas horas pelo deserto chegamos a Peine que é um oásis no meio do deserto. Um oásis mesmo com casas, piscina, água e plantas. E na base dos Andes que nos tem acompanhado durante toda a viagem. Depois de visitar as ruínas de Peine chegamos à Reserva Natural dos Flamingos na Laguna de Chaxa. A reserva é o habitat natural de três tipos de flamingos: chileno, andino e de james. Esse último é aquele de cor salmão. São lindos, muitos, juntam-se a outros pássaros e comem uns camarõezinhos que sobrevivem nas lagoas salgadas. Também tem raposas e ratos do deserto. Vimos um rato apenas. Ficamos na lagoa até o por do sol para ver a revoada dos flamingos.


E daí para SP de Atacama já a 2.400 metros acima do nível do mar. Parece besteira, mas comecei a sentir os efeitos da altitude. Dores de cabeça terríveis, cabelo elétrico, pele seca. Cheguei a SPA e me joguei na cama depois de duas aspirinas tomadas pelo caminho. O deserto cobrando seu pedágio.

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Um comentário sobre “De Santiago a São Pedro do Atacama – 1.910 km pela Ruta 5

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