Voltando ao Brasil

“Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano
Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu pátio”
Violeta Parra

Chegamos ao Brasil depois de um ano. Fizemos uma viagem maravilhosa. Vimos paisagens lindas, lugares diferentes, abrimos nossa mente para várias coisas. Voltamos para casa para encontrar todos os familiares bem, saudáveis e sem problemas. Quando pensamos que foi um ano inteiro e que só tivemos dois problemas de saúde: minha dengue e o pé torcido do Carlos, que não perdemos nada nem sequer um ônibus e que conseguimos terminar com uma economia de 30% em cima do orçamento inicial percebemos que tivemos muita sorte e que somos econômicos e organizados. A volta é uma delícia: rever os amigos queridos e descobrir que estão todos bem, rever os lugares familiares e conhecidos, temos sempre banho quente, temos nosso próprio banheiro, não preciso mais carregar papel higiênico por todos os lugares, o Carlos finalmente tirou a prótese das costas (a mochila que ele carregou por um ano), não precisamos mais lavar a louça antes e depois de comer e faz um mês que não vejo um prato de miojo.

Já voltar para a realidade está sendo difícil. Depois de um ano de viagem descobrimos que de todas as aventuras que vivemos a maior delas e mais difícil está sendo voltar para casa. Mesmo porque casa passou a ter outro sentido e a gente tem saudade da estrada, daquele friozinho na barriga cada vez que íamos atravessar uma fronteira ou tomar um avião para outro país, fazer novos amigos todos os dias, ver lugares de cartão postal. E vem junto um sentimento de não pertencer a lugar algum. Descobrimos que viajar e pertencer ao mundo são um caminho sem retorno e que nos transformamos em pessoas que nos adaptamos a qualquer cultura e situação e adoramos aeroportos. Agora as notícias do mundo já não passam despercebidas para nós e conseguimos ver como a mídia é parcial e como privilegia determinados países. Ou seja, os pés começam a querer andar mais.

Em Santiago, esperando o voo para São Paulo
Em Santiago, esperando o voo para São Paulo

Pela minha cara na foto dá para imaginar meu estado de humor ao voltar para o Brasil.
Por quê, vocês me perguntam. E eu respondo, juntamente com tudo acima, eu queria continuar vivendo pelo mundo onde:
– não é necessário ter carro, todos os lugares tem transporte público, tem como andar de bicicleta ou mesmo não gastar muito pagando táxis ou tuk-tuks.
– e eu tenha a liberdade de ir e vir porque aqui não é seguro e nem temos transportes público ou estradas sem buracos, sem pedágios.
– mesmo que haja corrupção, ela não some com 1 bilhão de reais por dia
– pobre não é o que tem menos, mas sim o que necessita de menos.
– com pouco dinheiro no bolso eu possa me divertir ter uma vida cultural relativamente agitada e ainda viajar de vez em quando
– as cidades não são feitas para te derrotar
– se eu cumprir todos os meu deveres estarei ajudando para que tudo melhore. No Brasil se você cumprir todas as obrigações se transforma no otário da hora.
– possa atravessar uma rua pela faixa de segurança sem nem precisar olhar para os lados ou se acostumar a voltar para casa a pé às 3 da manhã no silêncio da madrugada sem precisar olhar para trás
– eu possa viver tranquila e abrir um jornal, assistir o noticiário na TV e não ver policiais sendo atacados, bombeiros mortos, casos de homicídio ou latrocínio (roubo seguido de morte) todo dia e a propriedade pública e privada sendo destruídas.
– o trânsito não seja o lugar onde as pessoas descarreguem todo o seu estresse, mostrem seu lado mais animalesco e saiam impunes.
– eu possa usar meu cartão de crédito no exterior sem pagar impostos exorbitantes. É certo que os argentinos estão pagando 20% mas não vale comparar com os piores.
– eu possa sair descabelada, de calça velha, camiseta repetida, perna e suvaco cabeludo que ninguém vai ficar me julgando ou criticando.
– a felicidade não está em shoppings, compras e unhas bem feitas.
– no Brasil você só é valorizado se tem um trabalho considerado bom, de ‘classe média’. Por onde passamos ninguém se importa se você é garçonete ou professora.
– não vou ser julgada pela roupa que visto ou pelo que eu tenho. Brasileiro é uma tristeza. É uma coisa louca. Se paga 4.000 Reais por uma bolsa só para desfilar com ela no escritório. Carro de 100.000 Reais só para chegar à festa e todo mundo ficar comentando e invejando. Não importa se você terá que pagar em 24x sem juros no carnê porque aqui o negócio é se exibir. Seu conteúdo vale zero. Aqui o negócio é pagar caro, no exterior é comprar bem por uma pechincha.
– eu não precise investir meu dinheiro para mostrar uma vida que não é a minha porque aqui se você não mora em certo lugar, veste as roupas certas e tem o carro certo você não é ninguém. Toda vez que eu encontrava alguém de São Paulo na viagem a primeira coisa que perguntavam é em que bairro eu morava. E dai te classificam.
– eu possa trabalhar para pagar meus gastos. Em países que estão no nível do nosso uma pessoa trabalha para viver e não precisa viver para trabalhar
– o normal pode ser qualquer coisa e que cada um tem seu próprio mundo pessoal sem precisar de aparências ou máscaras.
– as pessoas não sejam incoerentes. No exterior quando alguém te convida para ir a casa dele já te dá o endereço, o telefone, os dias possíveis. Não é como aqui, só da boca pra fora. Aqueles famosos: me liga, vou te ligar, passa lá em casa, etc.
– existem outros motivos que eu não vou enumerar aqui para não ficar de chata, mas que envolve educação, bons costumes, civilidade, organização, etc.

E com tudo isso descobrimos o que é a síndrome do regresso: é quando você percebe que as outras realidades além de diferentes da sua são melhores. E não é porque passamos pouco tempo em cada país ou porque viajamos como turistas (que não é verdade).
Nem vou começar a enumerar aqui a quantidade de problemas de todos os tipos que existem no Brasil porque isso é chover no molhado e cansar os que já estão sabendo que no nosso país falta segurança, falta educação e saúde pública, falta tolerância, falta tanta coisa e sobram outras mais, como desigualdades, exclusões, injustiças e que aqui a lei não vale para todos.
Todo mundo compara o Brasil com os países desenvolvidos: EUA e Europa. É claro que nessa comparação o país sempre sai perdendo.
O mais duro foi perceber que quando comparado com os países menos desenvolvidos que passamos como o Camboja, a Índia, o Laos e o Vietnã o nosso também sai perdendo.
Tivemos que viajar um ano para perceber isso? Sim. Na verdade antes a comparação não existia. O mundo todo tem problemas, mas parece que os outros mundos tudo é mais justo do que o lugar em que nasci.
Como eu poderia querer voltar à Pátria Amada?

Não quero dizer com isso que o resto do mundo não tem problemas. Tem sim, tem pobreza, preconceito, desigualdades, injustiça. Tem de tudo.
Mas na verdade, todo mundo deveria ter a oportunidade de sair da sua bolha, ver o mundo com outros olhos, aprender novos valores e, quem sabe, voltar e conseguir lutar por um lugar melhor. Adoraria ter voltado pensando que o meu Brasil é o melhor lugar para se viver infelizmente me sinto muito ingênua em pensar que isso poderia ser possível. Ninguém tem a resposta e não sou a única em duvidar do “desenvolvimento” do Brasil.

Segundo estudos a síndrome do regresso é curada após dois anos. Nos primeiros tempos a pessoa vive no passado ou aproveitando a condição de visitante ilustre (afinal ficou um tempão sem ver todos e é sempre bem recebido). Passada essa fase o individuo começa a sonhar com o futuro. É o que estamos fazendo. Já temos planos para a próxima porque afinal a vida é que é a viagem e agora estamos sofrendo da síndrome do viajante

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4 comentários sobre “Voltando ao Brasil

  1. Anônimo

    Vânia e Carlos,

    Devo dizer que me emocionei ao longo de todo o ano, durante a vossa viagem, com as fotos maravilhosas, com os comentários e descrições corretos sobre cada local visitado, sobre cada descoberta de costumes e modos de vida diferentes dos nossos.
    Ri muito, mas sofri também com os dois em todas as aventuras alegres ou com os perrengues inevitáveis, mas nada, realmente nada se comparou à tristeza da constatação das verdades escritas agora sobre o Brasil, pois apesar de termos consciência dessas dolorosas verdades, isso não nos deixa menos angustiados, porque partilhamos das mesmas idéias e nos faltam palavras para transmitir-lhes algum consolo ou alguma esperança de melhoras.
    Só podemos desejar-lhes uma próxima viagem muito boa e que Deus nos ajude, se possível, a vislumbrar alguma luz no final do túnel.

  2. Vânia/Carlos a “nossa” viagem (claro que vocês não viajaram sozinhos) foi muito envolvente, gratificante e esclarecedora além de ter sido muito divertida. Todos nós sempre estávamos à espera do próximo post, que eram lidos com muito prazer (seu texto é ótimo). Como sabemos que, de acordo com a teoria da evolução, vocês já atingiram um novo grau evolutivo (o de viajante) ficaremos no aguardo da nova partida para que possamos, mais uma vez, viajar juntos. Sejam benvindos. Xico

  3. Queridos,

    Acompanhei a viagem de voces pelo blog e aprendi muito. Eu e minha esposa daremos uma volta ao mundo a partir de janeiro e, com certeza, voces sao uma grande inspiracao para nos dois.

    Sejam bem-vindos, e que o mesmo Deus que os acompanhou em toda a trajetoria continue os abencoando na dificil tarefa de encarar esse pais com os mesmos problemas de sempre…

    A gente se ve por ai!

    1. vcteixeira

      Queridos futuros companheiros de volta ao mundo: Wendell e esposa,

      É uma alegria servir de inspiração para alguém. Ficamos honrados.
      Agora temos que usar todo o jogo de cintura que tivemos nas várias etapas e vários perrengues da viagem para encarar o país como mais uma grande aventura.
      Caso precise de alguma dica avise. Ainda vou escrever sobre o que aprendemos com os nossos erros nessa viagem para consertar na próxima.
      E, é claro, a gente se ve por ai. Abraços.

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