Phnom Penh – o turismo da tristeza

Árvore em que eram mortas as crianças. Pegavam pelos pés e batiam a cabeça no tronco. Essa será sempre a nossa lembrança do Camboja triste.
Árvore em que eram mortas as crianças. Pegavam pelos pés e batiam a cabeça no tronco. Essa será sempre a nossa lembrança do Camboja triste.

Saímos de Siem Reap, deixando Angkor Wat para trás logo pela manhã para aproveitar o dia melhor. Como sempre ônibus normal, de linha e cheio de locais. Mesmo sendo o ônibus para a capital, ligam a tv e passa apenas karaoke com legendas em cambojano para o pessoal cantar no ônibus, ninguém cantou. Ainda bem porque não deve ser fácil viajar com pessoal cantando mas seria interessante de ver. Viajando pelo Camboja dá para perceber como o país é plano e como é tranquilo. Continuamos na companhia da nossa amiga britânica Jill. Dessa vez ficamos no mesmo hotel e dividimos o tuk tuk.

Phnom Penh é a capital do Camboja e na época da Indochina Francesa era considerada uma das cidades mais lindas da Ásia, era até chamada de Pérola da Ásia. A cidade continua bonita apesar da invasão dos japoneses, dos vietnamitas do norte e dos vietcongues que a usaram como base para a Guerra do Vietnã e apesar do Khmer Vermelho e Pol Pot. O Khmer Vermelho, em 1975, tomou a cidade e enviou todos os habitantes, principalmente os ricos e educados em uma marcha para os campos e para fazer trabalhos forçados nas propriedades rurais. Uma escola pública chamada Tuol Sleng foi tomada por forças de Pol Pot e transformada em um campo de prisioneiros, onde as pessoas eram detidas e torturadas. O que esse ditador terrível, que exterminou um terço da população do país, queria era transformar o país em economia agrária. Torturou e matou todos que considerava inimigos: pessoas educadas, adversários políticos, monges budistas, cristãos e todas as pessoas que não eram da etnia khmer, i.e., vietnamitas, tailandeses, chineses. Quem ele não matou morreu de fome porque a sociedade que ele planejou não deu certo e porque tudo o que era produzido era trocado por armas e balas. Visitar Phnom Penh é uma experiência tocante e comovedora porque é visitar os dois lugares que representam o genocídio: o Museu do Genocídio Tuol Sleng também conhecido como a S-21 e o Choeung Ek Genocidal Center conhecido como os Killing Fields (Campos da Morte). A S-21 fica na cidade mas o Choeung fica a uns 15 kms do centro.
Nossa primeira providência foi arrumar um tuk tuk para fazer o passeio. Encontramos o Mr. Lee, o melhor motorista do Camboja, que nos levou para os dois lugares e no dia seguinte até o mercado. Repetindo: um cambojano muito simpático, prestativo e trabalhador como todos os que encontramos:

O caminho até os Killing Fields é uma poeira só. Nos arrependemos de não comprar uma máscara ou ter um lenço porque é quase impossível respirar. Chegamos bem, pouca fila, muito organizado. Compramos as entradas e nos deram um áudio guia para o passeio. Esse lugar foi apenas um dos 300 campos de concentração e extermínio e o único que restou e virou um memorial. Depois que os vietnamitas expulsaram Pol Pot a população revoltada destruiu os campos de extermínio. O memorial foi construído em volta das covas coletivas de milhares de vítimas que eram transportadas da prisão S-21 e executadas aqui. Como cada vez chegava mais gente e tinha que ser exterminada, alguns prisioneiros eram enterrados vivos e DDT era jogado por cima para disfarçar o cheiro terrível e para matar qualquer um que estivesse vivo. Algumas eram enterradas sem cabeça, crianças eram assassinadas brutalmente. Durante todo o percurso reina um silêncio absoluto. Apesar de cheio de turistas, não se escuta um som. A sensação é de terror absoluto, dó e respeito. A visão dos túmulos coletivos, alguns que ainda não foram escavados, é chocante. Ver ossos e dentes espalhados pelo chão é comum.
Quando você chega nos Killing Fields of Choeung Ek, o que mais chama a atenção é como é cheio de paz o lugar. É tão calmo que é difícil entender e aceitar os horrores, a crueldade e a barbárie que foi conduzida aqui pelo ultra comunista Khmer Vermelho entre 1975 e 1979. Só nesse campo foram mortas 20.000 pessoas incluindo estrangeiros.

Tanta tristeza, tanta maldade mas tivemos que parar para almoçar. Nós e Jill já tínhamos nosso sanduíche na mochila, compramos um refrigerante, calor demais e descansamos um pouco. A segunda parte do passeio não seria mais leve. Fomos visitar a S-21, a prisão onde eram presos, interrogados, torturados aqueles que seriam exterminados no Killing Fields após a confissão. Quando o exército vietnamita chegou ainda encontraram 14 corpos em decomposição, um de mulher, e inúmeros presos. Toda a documentação: fotos, cartas, interrogatórios, ferramentas de tortura estão expostos. A escola que foi transformada em prisão teve suas janelas lacradas, sua cerca reforçada com arame farpado e as classes transformadas em várias celas de 80 cm por 2 metros.

E aí foi tomar um banho, jantar e dormir. E tentar não sonhar com tanta maldade. Sem lembrar que o responsável por tudo isso, Pol Pot, morreu de forma natural aos 73 anos sem nunca ter sido punido. Dia seguinte acordamos cedo para ir conhecer a cidade. Mr. Lee a postos fomos conhecer o Mercado Central (Phsar Thmei) peça de arquitetura francesa que foi recentemente restaurada. Baratinho, baratinho para você. Tem de tudo, de CDs e DVDs, legumes a joias.

E depois foi andar pela cidade e ver outras coisas, enquanto a Jill visitava o Palácio Real.

Fomos almoçar num restaurante gracinha e barato, encontramos a Jill às 2 da tarde e pegamos nosso ônibus para o Vietnã. O Camboja tinha acabado. Foi uma passagem rápida mas deu para fazer o principal e deixar saudades. Um dia voltamos, quem sabe.

Um comentário sobre “Phnom Penh – o turismo da tristeza

  1. Anônimo

    Camboja possui um povo lindo, trabalhador e templos magníficos, mas infelizmente surgiu Pol Pot, o perverso sanguinário, que apesar de estudar em Paris, fanatizou-se com o comunismo e fez o holocausto do seu próprio povo, perseguindo e exterminando dois milhões de pessoas, durante quatro anos. Não é de admirar o silêncio e a tristeza que devem pesar no ar o tempo todo e a comoção que atingiu vocês durante o passeio. Até as fotos evocam dor e mexem com nossos sentimentos.

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